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sustos


o bebé voltou a adoecer e mais uma vez 'não tem nada', apenas manchas roxas pelo corpo
no centro de saúde desvalorizam, ainda ouvi “mães solteiras e desta idade, vê-se mesmo que não tem mais que fazer, mas pronto, pode leva-lo ao pediatra habitual ao fim do dia, por descargo de consciência, já que insiste em preocupar-se com aquilo que eu entendo como uma virose passageira” – mal sabia ela que iria engolir tudo o que disse, mal sabia eu que devia sim preocupar-me mesmo 
ao fim do dia decidi levar o meu bebé as urgências do hospital, em vez da consulta com o pediatra também não houve interesse. em boa hora o fiz!

dei entrada no hospital , separaram-me do meu filho, fui barrada num dos corredores e apenas foi possível ler numa placa da porta 'reanimação e choques eléctricos' e percebi que a situação era, afinal, muito mais grave que uma tal virose passageira. 
situação clínica estabilizada e transferência para outro hospital com especialidade em doenças infecto-contagiosas. cuidados intensivos, isolamento completo. máquinas e máquinas à sua volta, médicos que corriam em aparato e apenas me diziam: -mão pode entrar, vê o seu filho através desta janela, prepare-se para o pior
dia seguinte, diagnostico MENINGITE, a variante da doença é grave, dificilmente o bebé sobrevive e caso isso aconteça ficará cego, surdo e/ou paralisado…
Fui aconselhada a tomar um antibiótico que provocava reacções estranhas. assustei-me.
o caso interessava muito aos médicos que estiveram sempre bastante atentos
o diagnostico era mais grave de dia para dia, eu sabia apenas que se me caísse, ninguém tomaria o meu lugar e o meu menino deixava de ter os meus olhos a observa-lo. impensável!
Tinha duas hipóteses, ou lutava com ele ou desistia... - ALGUMA MÃE DESISTE?

sentia tanto a falta de alguém com quem chorar, de alguém que me abraçasse, de alguém que me dissesse que tudo iria correr bem

O cenário continuava a agravar- dia após dia
os médicos diziam que ele estava a agarrar-se à vida com toda a sua força, mas não o suficiente
ao sétimo dia de internamento vim a casa

Sabes, amorzinho... - disse eu para o meu bebé - tu foste a melhor coisa que me aconteceu na vida, eu ainda não tinha percebido bem o significado de ser mãe, de ter um filho, de ter dado à luz um ser que me proporcionasse tanta felicidade. Sabes, meu amor,  comecei a ver o mundo, a vida de maneira diferente, de forma mais pura, agora olho para a vida em função de ti... Hoje estou muito feliz. Hoje percebi o verdadeiro espaço que ocupas no meu coração... Todo! Tu estás dentro dele e todas as tuas atitudes se reflectem nele, se tu fores forte, o meu coração é igualmente forte... Sabes o quanto cresci nesta ultima semana? O suficiente para perceber que não te quero perder [se até aqui tu foste uma espécie de irmão mais novo, com isto que nos aconteceu passaste a ser o meu filho, só meuQuando tu nasceste eu prometi que iríamos ser muito felizes juntos, lembras-te? Tenho essa promessa para cumprir... A mamã vai a casa buscar o teu ursinho, amanhã estou de volta mas antes quero pedir-te um grande favor... - Continua a lutar, por favor, pela nossa promessa...

Embora tivesse sido alertada para que não houvesse qualquer contacto físico, não consegui resistir, beijei-lhe a testa antes de sair  
há dois minutos em casa, recebi uma chamada do hospital - O estado clínico tinha agravado, estavam a comunicar-me que iriam avançar para a operação, uma cirurgia delicada em que nada era garantido
a operação correi bem!!!
as febres continuaram altas por mais alguns dias. 
estão afastadas as hipóteses de qualquer deficiência mental, visual ou física, porem, um ouvido não respondia aos estímulos, mas o que era isso comparado com o cenário que inicialmente pintaram?
continuou isolado até ao fim do internamento, desta forma a equipa médica estava mais atenta a qualquer alteração que eventualmente pudesse acontecer.
aproximava-se o fim do período estipulado de recuperação pós-operatório, eu sentia-me cada vez mais confiante,
Sentia-me uma nova mulher, ou talvez apenas UMA MULHER, pois a sensação que tenho é que até ali, tinha vivido uma adolescência prolongada
Olhei para este mês como que se alguém me tivesse dado um valente abanão e me dissesse:
"- EI, OLHA A TUA VOLTA, ESTÁS AÍ PARADA A FAZER O QUE?"

voltaram juntas, medica e enfermeira
cumprimentou-me com um sorriso nos lábio e perguntou-me o que se passava...
como assim!!!??? estamos na hora de fecho das altas, como o que é que se passa? 
qual é a duvida??? quero sair daqui, esquecer este pesadelo, pegar o meu filho nos braços e correr escada abaixo à procura da nossa liberdade...
- o que se passa Sra. Dra, é que estou há 1 mês aqui fechada e venho cobrar a promessa que nos fez... prometeu dar-nos ordem de soltura daqui para fora, lembra-se?
- o menino dos olhos bonitos?
- esse mesmo, tem alta, não tem?
- tem sim, mas eu gostava era de poder observa-lo (ainda) melhor... é que ele tem uns olhos tão lindos e eu queria tanto umas hormonas desses olhos para aplicar em mim...


- Vá, vão lá embora e voltem daqui a uma semana, descansem que o (seu) cansaço psicológico nota-se a léguas... E não falo apenas neste susto

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