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E eu tenho um...


Melhor que ser menino? Não há nada melhor neste mundo do que ser menino. Pigmeu furioso com fisgas e cascas de caracóis nas algibeiras, terrorista bate-o-pé com metralhadora espacial e jeito para o desenho, um bandido de metro e picos que assa gafanhotos e se atira aos braços da mãe, um guri de cano-de-esgoto, com ranho seco na nariga e olhos de céu azul, a comer um pastel roubado - haverá coisa melhor? Não. Nada. Um menino é um fascista com lapsos de anjinho. É um tirano-júnior, maníaco-depressivo de lágrima-puxa-risota e risota-puxa-birra, com o coração mais branquinho, a transbordar de fuligem e de maldade. É um psicopata com as asas presas nos suspensórios. É um bicho de nuca suada e bochechas cheias de sangue, com remoinhos no cabelo e amor com surpresa nos olhos, que se deita vivinho-da-costa e acorda rabujas-da-sesta, que não quer tomar banho nem tão-pouco sair do banho, que prefere morrer a dormir e que dorme como se estivesse morto, um anarca entorna-Corn-flakes-com-leite, um ata-latas-nas-caudas-dos-cães, um beijoqueiro-de-papás-e-mamãs que gosta de assobiar mas que não sabe. Geralmente um menino é mau, mas de vez em quando é muito bom. Um menino sabe que ser ocasionalmente amoroso causa maior efeito quando é hábito ser-se peste. Mas não é por isso. Quando um menino é bom, é mesmo por bondade. De resto, um menino não é desobediente - é a própria desobediência. Como um Vesúvio é mais o próprio vulcão do que meramente vulcânico. Um menino só obedece por uma questão de manha, ou de melancolia ou de terror. Um menino é muito difícil de obrigar. Um menino é um grave problema de autoridade. Um menino é um chefe contrariado, um extremista pequenote que quer e não pode, pela razão mais estúpida: porque o não deixam. As coisas que um menino mais quer na vida são amor verdadeiro e bombas atómicas. O problema da autoridade acaba por resolver-se. O mal é que os meninos se fazem rapazes. Rebentam as borbulhas, as dúvidas existenciais, as diferenças, as angústias, os sentidos da realidade e tudo o mais. Os meninos perdem-se no que se tornam. O mundo precisa de homens. A vida mata os nossos meninos. A verdade é que não há homem tão teso e corajoso como um menino. Comparados com os meninos, nós, os homens, somos umas meninas. É que um menino tem mesmo medo. Tem pesadelos. Tem pouca informação. E mesmo assim morde o lábio, agarra o cabo da espada de pau até os dedos ficarem brancos e avança. E quando não tem medo, atira-se de cabeça. Numa época em que os homens são cada vez mais confusos, os meninos são os últimos macho men da humanidade. Rambos de rebuçado de seiva de pinheiro, animais selvagens de dente afiado, pata gorda, abraço doce. Pessoas em quem se pode absolutamente confiar. Mafarricos militantes, capazes de morrer pela Mãe, pela Pátria ou pela Pastilha Elástica. Em cima da almofada, a cabeça de um menino é um mundo sozinho. Tentando não dormir, ou já sonhando, a cabeça de um menino está cheia como nunca mais na vida há-de estar, de fisgas e facas, cobras, piratas e princesas, leopardos e papões, borboletas e botas de esquimó, tão cheia como o coração a bater por baixo do pijama. Cheia sem espaço, cheia sem vazio. E igual ao coração, igualzinha ao coração, como nunca mais na vida há-de estar. Os homenzinhos que já não somos e se calhar amamos por causa disso. - Miguel Esteves Cardoso (2001), Último Volume

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