| p r e f á c i o |

|odiario.blog@gmail.com|

*

A minha mãe só tinha um olho e eu odiava-a…
Ela era funcionária no refeitório da escola, cozinhava para os meus professores e colegas como forma de sustento para a familia.
Um dia, durante a escola ela veio dizer-me olá, eu fiquei muito envergonhado, como é que ela pôde fazer-me isso? Ignorei, lancei-lhe um olhar de ódio e corri.
No dia seguinte os meus colegas troçavam “ah, ah… a tua mãe só tem um olho”. Eu queria ter um buraco para me enterrar, e também queria fazer a minha mãe desaparecer...
Então, naquele dia eu confrontei-a, e disse-lhe “se você me pode me causar vergonha, porque é que simplesmente não morre????” Ela não respondeu. Eu não pensei, nem por um segundo no que acabara de dizer porque estava possuído pela raiva. Eu esqueci-me dos sentimentos dela.
Quis fugir de casa e não ter mais nada a ver com ela.
Apliquei-me nos estudos e tive oportunidade de transferência para continuar a estudar em Singapura. Comprei uma casa, casei-me, tive filhos. Estava feliz com a minha casa, os meus filhos e todo o conforto. Um dia, a minha mãe visitou-me, ela não me via à anos e nem conhecia os netos. Quando bateu à minha porta, os meus filhos riram-se dela e eu repreendi-a por ter vindo ser sem convidada, gritei-lhe “COMO OUSA VIR A MINHA CASA E ASSUSTAR OS MEUS FILHOS? SAIA JÁ DAQUI!”.
Humildemente e baixinho, ela respondeu “oh, desculpe, eu devo ter-me enganado na morada”, e desapareceu.
Um dia chegou uma carta, a respeito da escola, era preciso deslocar-me à antiga morada. Menti à minha esposa, dizendo-lhe que iria sair, em viagem de negócios.
Fui à velha cabana onde vivi a minha infância, apenas por curiosidade. Os vizinhos disseram que ela tinha morrido, não chorei uma lágrima, sequer, recebi uma carta que ela queria que eu lesse. Dizia:

Meu mais amado filho,
Eu penso em ti o tempo todo. Sinto muito por ter ido a Singapura e assustado os seus filhos. Eu estava muito feliz quando ouvi que você viria, mas posso não ser capaz de nem mesmo sair da minha cama para o ver. Sinto muito pela constante vergonha que você passou enquanto crescia. Veja bem… quando você era muito pequeno, sofreu um acidente e perdeu um olho. Como mãe, não podia ficar parada a assistir ao seu crescimento, com um olho só. Então dei-te o meu. Estava muito, muito orgulhosa do meu filho poder ver o mundo inteiro por mim, no meu lugar, com aquele olho. Com todo meu amor para si,
Sua mãe.

4 comentários:

  1. O amor de uma mãe é capaz de toda essa dadiva, dessa generosidade e compreensão, mas nós filhos nunca seremos capazes de compreender, amar, e dar às nossas mães e pais o que eles nos dão, porque somos demasiado egoístas.

    ResponderEliminar
  2. Não devemos criticar sem conhecer.

    ResponderEliminar
  3. Esta é interessante, deveras

    ResponderEliminar

*