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os meus pais

comemoraram Fizeram 34 anos de casamento, no sábado.
O meu pai é um homem forte cuja postura, só por si impõe respeito, preserva os valores tradicionais da educação, os quais sempre exigiu que fossem cumpridos, nenhuma de nós eu e a minha irmã alguma vez se atreveu a desobedecer ou protestar, era tal o respeito talvez algum medo que nos incutia e que nunca permitiu grande aproximação. O meu pai foi até há muito pouco tempo um marido ausente passava meses no estrangeiro a trabalhar arduamente para que nunca nos faltasse nada em casa, trabalhou para alimentar uma família com quem não vivia, fez vida lá fora, uma vida inteira de um negócio que não correu bem, mas insistiu, estava no seu mundo e o importante era seguir em frente, sempre em frente, ainda que barreiras o impedissem, ele seguia e ultrapassava cada uma delas. Chegou o dia em que desistiu, deixou de encontrar sentido naquela estrada, nada de novo havia, a luta era a mesma, as barreiras eram as mesmas, e ele voltou.
A minha mãe esteve sempre aqui, dedicou-nos a vida,  a tempo inteiro, cuidava da casa, de nós e das nossas amigas que vinham lanchar depois das aulas, levava e trazia-nos da escola, ia buscar para almoçar todos os dias, e fazia bolinhos que nos mandava para partilhar não haviam meninos obesos nem alérgicos naquela altura A minha mãe esteve sempre aqui também quando estávamos doentes ou precisámos de um castigo e quando começámos a sair, mesmo quando nos marcava hora para regressarmos e o nosso relógio ficava em casa propositadamente ou mesmo quando sabia que aquela amiga fazia anos pela terceira vez no mesmo ano e mesmo assim nos deixava ir à festa. Esteve também aqui para nos ensinar a voar e de todas as vezes que caímos em vez de nos levantar, ensinou a recomeçar.
O meu pai voltou há pouco tempo e correram muito bem os primeiros meses, estavam a reaprender a viver uma vida em conjunto. A minha mãe sonhou com um regresso aos primeiros anos de casamento, já com a vida mais confortável financeiramente de forma a poderem aproveitar mais da vida, desfrutar dos netos, ao contrário disso, o meu pai acomodou-se, voltou para ser servido e viver a sua vida, para não ser chateado nem incomodado nem ter ninguém a meter-se no que faz ou nas decisões que toma se decidir trocar de carro duas vezes no mesmo mês, acha que é com ele, e não tem de consultar ninguém a minha mãe ou ser criticado, muito menos pelas filhas não se preocupa, não quer saber de mais nada para além dele, vive uma vida egoísta e afasta tudo o que é gente que se tente aproximar. Ultimamente a solução tem sido o diálogo, quando ele o permite e muito suavemente para não assustar e correr o risco de ficar a falar sozinha, a minha mãe, lá se enche de coragem e puxa do fundo do saco da sua paciência e uma boa dose de boa vontade e calmamente inicia o seu discurso, que por norma termina em bem, ele reconhece e as coisas equilibram-se e lá vão seguindo o seu rumo feliz, como era quando ele estava fora e voltava por algumas semanas.
Ontem encontrei a minha mãe muito cansada e desiludida, por norma ela não nos fala destes assuntos que eventualmente nos tocam e nos deixam tristes eterna protecção a menos que esteja mesmo cheia, capaz de explodir se não falar com alguém, por norma comigo, e eu sei que ela tem razão, eu sei que ela merece tudo de bom que existe no universo, só não sei como tirá-la deste sufoco em que vive ao sujeitar-se a estar ali para servir, em troca de um nada, quando podia devia ter tudo, e tudo para a minha mãe é muito pouco e custa igualmente muito pouco, mas não posso mudar o meu pai, não posso sequer ter uma conversa com ele, jamais mo permitiria e já tentei e voltei a tentar acredito que isto volte a bom porto com mais uma conversa, o que não consigo acreditar, embora queira muito é que haja vontade coragem para voltar a conversar, sabendo que um dia destes voltará tudo ao mesmo
No sábado devia ter havido um jantar, quem sabe uma festa ou apenas uma comemoração simbólica, mas não, nada houve eu quero acreditar que seja apenas uma fase má que faz parte do casamento foi apenas um sábado como todos os outros cinquenta e um sábado de cada ano
Ainda assim é com um grande orgulho que os vejo, por toda a distancia em que viveram e por tudo aquilo a que sobreviveram e ultrapassaram. A grande maioria dos casamentos de hoje, não vão poder comemorar fazer trinta-e-quatro-anos-de-casamento, juntos. Hoje em dia ninguém pouca gente está para aturar seja o que for e a separação surge na primeira curva quando existem tantas coisas positivas numa vida em conjunto. 

7 comentários:

  1. Quase chorei a ler o teu texto, como eu te compreendo.

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  2. Passa no meu novo blog, estamos a tentar ajudar estes lindos bichinhos:) Segue-nos e ajuda a passar a mensagem se poderes. Beijinhos

    http://www.sosbichinhos.com/#pt

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  3. Isto faz me pensar imenso...no casamento, especialmente. Fazemos opções em conjunto (o teu pai ir para fora e tua mãe ficar a tomar conta de vocês) e essas decisões podem hipotecar a nossa vida futuramente....uma vida passada com esperança e expectativa em algo que não aparece e torna-se frustrante...espero, sinceramente, que melhore e que a tua mãe consiga uma maior estabilidade em casa.Beijinhos!!

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  4. A distância não é fácil... e quando a isso se junta a falta de diálogo torna-se... difícil.

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  5. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Fabrício e cheguei até vc através do Blog do São. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir meu blog Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. Estou me aprimorando, e com os comentários sinceros posso me nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs

    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.

    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

    Abraços

    http://narroterapia.blogspot.com/

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