| p r e f á c i o |

|odiario.blog@gmail.com|

Dos sentimentos


Na infância sentia o coração apertado, a garganta doía e daí ao choro era um pulinho, quando me assustava com o barulho de balões a rebentar, lembro-me no verão, com os gelados que apertava e saltava tipo foguete directo para o chão, ou partiam, ou derretiam. A azelhice também provocava episódios semelhantes quando caia e esfarrapava os joelhos e as mãos -era impossível não chorar- a voz grossa do meu pai no seu tom zangado fazia-me tremer todo o corpo. Com o passar dos anos aprendi a não chorar, sofria, é certo, mas em silêncio, ainda assim o coração mantinha o aperto e a garganta doía. Cresci, e os dramas, ainda que diferentes, continuavam a existir, era um mundo de sonhos a desmoronar, o coração despedaçado e a confiança quebrada. Fui sofrendo em silencio e aperfeiçoando essa arte. Perguntavam-me como estava, e sempre na esperança de ouvirem uma resposta alegre e positiva, ou que a recuperação se desse em tempo record. Às vezes parece vergonha, sofrer. Há pessoas sem qualquer pudor em apregoar felicidade, amor, coração cheio, vida transbordando amor e alegria.
Apesar dos trambolhões do passado nem sempre se chega a esta idade coma segurança de andar com cuidado e talvez por isso, quando algo corre mal se adoptem os mesmos procedimentos de criança, levantar, sacudir as mãos, desenhar um sorriso na cara e fingir que não doí, que não importa.
Mas já dizia a velhinha avó: quem não se sente, não é filho de boa gente: Sentir borboletas no estômago ou o coração a querer saltar é tão normal como ficar triste quando as coisas correm menos bem. É ilusão acreditar que quantos mais trambolhões se dão, menos custa, às vezes é exactamente o oposto, depende da queda. Cometem-se erros e um dos maiores erros que se podem cometer é confiar em quem não é de confiança

4 comentários:

  1. Cada vez mais, estou convencido que a vida está cheia de desilusões.

    ResponderEliminar
  2. Gostei muito deste seu texto e da forma como expressa tão bem o que escreve. A vida está cheia de pessoas más, mas há outras tantas boas que merecem o nosso carinho.

    ResponderEliminar
  3. Eu sou de chorar quando caio e esmurro os joelhos, mas também de chorar porque alguém quebrou a confiança que eu tinha nessa pessoa. É como diz, depende sempre da queda! Mas chorar e libertar a raiva, o sofrer, é sempre uma terapia boa para a alma! Força (:

    ResponderEliminar

*