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carta a quem me morre por dentro todos os dias um bocadinho

Mesmo que quisesse olhar para trás não identificaria o tempo em que isto tenha começado mas sei que foi à muito, muito tempo, talvez tivesse sido sempre assim, talvez tenha começado ainda antes da memória me nascer... Mas o espaço que ocupas cá dentro é tão grande que há dias em que nem dou pelo bocadinho da tua morte em mim... Tenho muita pena e tu sabes disso, não sabes? Mas também sabes que faço o que posso, não sabes? Fiz o que pude, mas quer-me parecer que agora desisti, cansei-me. Demos cabo de tudo, do respeito que nos uniu, principalmente, deixámos uma relação e passámos a relacionar-nos, talvez por obrigação, porque na verdade duas pessoas com esta ligação deviam ser muito mais que obrigação. Sabes quantos anos tentei? Quantos anos te dei prioridade? Quantas vezes prescindi de mim para seres tu? Quantas vezes engoli sem pestanejar o veneno que me foi atirado? E as pedras que me acertaram?... Guardei-as e com elas fui construindo fortalezas para as feridas, o que querias, tive de criar defesas, isto porque sei que vens quase sempre cá mexer com o teu dedo indicador e não dás tempo nem para sarar, doía tanto! Agora já é fácil, os teus poderes estavam naquela parte de ti que já está morta em mim, só me restas em bocadinhos na obrigação que nos une...
Não percas (mais) tempo! Já viste o resto de vida que ainda te sobra no futuro? Era tão melhor se fizesses qualquer coisa útil com esse resto, tipo, ser feliz, sei lá... Tu até consegues, basta que não arrisques tanto, que ajas mais por ti e menos pelos outros, que penses por ti e não por aquilo que podem pensar de ti e não voltes a atirar-te de cabeça para a primeira piscina quando o sol aparece, porque ele não é constante e nem sempre vem para ficar, hoje por exemplo, é primavera mas choveu como no inverno, estás a ver como não podemos arriscar todos os trunfos de uma vez? A vida até é gira, e tu até consegues achar-lhe graça, tenho a certeza, basta que interiorizes isto 'não concordar comigo não é sinónimo de estarem contra mim' saber respeitar opiniões diferentes é um pilar para viver feliz em sociedade, mas isto vem de trás, foi um problema de educação, diz'que, faltou-te muitas vezes ser contrariada, ainda assim, basta que exijas a ti própria o mesmo que criticas nos outros, basta que não cuspas no prato onde vais comer, basta que interiorizes que cada um tem o seu umbigo e nem todos podem ou querem girar à volta do teu, basta que percebas que em qualquer lado onde estejam duas pessoas há lugar para duas pessoas e basta que entendas de uma vez por todas que não precisas mandar ninguém ao chão para te servir de degrau pois as melhores caminhadas são feitas com os pés na terra. Aqueles, que como eu, gostam verdadeiramente de ti podem caminhar a teu lado, contigo, mas só o farão se conseguires interiorizar que estás mesmo lado a lado, não podes caminhar lado a lado querendo sempre estar um passo à frente e não podes estar constantemente a defender-te com ataques, por essas inseguranças que tens...
Ou se calhar podes, aliás, podes mesmo tudo isto, mas neste caso terás de ser tu e só tu!  Ou será isto demasiado para ti e o melhor é deixar estar como está? Tu mandas o veneno, eu de escudo em punho defendo-me como sei ou posso. Pintamos uma paisagem onde a primavera rules, há flores, borboletas, passarinhos mas sabemos que por trás deste cenário a vida real é outra coisa. É a linha que separa a nossa ficção da mais triste realidade e disso nós percebemos porque mesmo do lado da ficção há aquela coisa real, aquela coisa da cumplicidade, da troca de olhares que dispensa palavras, para avisar que devemos levantar, sentar, falar, calar, entrar, sair, cumprimentar, ignorar...
Será que um dia crescemos e percebemos que somos mesmo uns garotos a agir como garotos?
Será um dia - esse dia - o dia, tarde de mais?