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festa na minha aldeia

este fim de semana houve festa na aldeia e o discurso de três senhoras era mais ou menos o seguinte:

- olha, aquela que aí vem não é a que mora naquela rua?
- não
- é
- não é, quem mora naquela rua é a irmã...
- pois é, esta mora aqui atrás.
- mas não vem sozinha...
- não, tem um namorado...
- com um filho?
- sim, e parecem-me felizes
- formam uma família engraçada?
- o que? aquela agora anda de namoro com aquele?
- como é que conseguiu?
- como? na horizontal, ela só pode ser boa na cama!
- fogo, e ele, arranjou um bolo com brinde?
- pois, ela tem um filho, nem sei como ele a aceitou
- ouvi dizer que o miúdo gosta muito dele
- gosta, gosta, ao principio é tudo muito bonito, agora da-lhe tudo o que quer, mas deixa passar o tempo
- também ouvi dizer que foi por causa dele que deixou de querer estar com o pai
- isso não sei, mas que parecem felizes, parecem
- cá para mim é tudo fingimento
- as aparências iludem, o que mostram cá fora não quer dizer que seja o que vivem em casa
- parece que ela finalmente encontrou alguém de jeito, este põe o outro a um canto
- mas já estão a viver juntos?
- acho que não
- estão, estão, eu tenho-o visto sair da casa dela de manhã
- então mas não foi ela que se separou há pouco tempo? ou foi a irmã?
- a irmã separou-se?
- eu cá acho que ela é boa pessoa, até foi convidada pelos escuteiros para fazer parte
- claro, ele é escuteiro
- não é não, o irmão dele é que é
- depois anda ali de sorriso na cara tod'armada, devia era ter vergonha
- namorar com um rapazinho daqueles e com um filho daquele tamanho
- o miúdo não é muito bom aluno e ela passa um bocado com ele na escola
- esperavas o quê? falta-lhe um pai
- pois, o que é que será feito do rapaz?
- eu cá não sei, é pessoa que nunca mais vi
- hum, acho que ele está proibido de aparecer por cá
- eu ouvi dizer que é o filho que não o quer ver
- deve ser por causa do novo namorado da mãe
- não, acho que não, o pai nunca quis saber do filho, o garoto chegou a procurá-lo
- ela é magra como tudo, deve ser da ruindade
- e ele parece-me mais magro também, era tão jeitosinho
- coitado, deve ser ela que dá cabo dele
- é, elas andam todas alfeiras, já viste que não há casamento que dure nesta aldeia? 
- não é bem assim, então olha a Maria, a Felismina e a Gilberta? 
- ah, não queiras comprar, essas são de boas famílias
- mas destas também não se esperava outra coisa, o pai nunca cá teve quando elas precisaram
- não sei para quê, nunca lhes vi riqueza
- quando ela engravidou eu avisei a mãe dela que a pusesse fora de casa, não quis e teve de lhe criar o filho que eu sei bem que ela foi sempre uma vagabunda e nunca quis saber do menino, coitadinho
- e quando ele teve aquela doença grave, estiveram em Lisboa quase dois meses, pensas que ela teve no hospital, teve, teve, deve ter lá andado a coçar-se nas esquinas com uns e com outros enquanto quem quisesse que tratasse da criança, coitadinho
- eu acho que a mãe chegou a ir lá passar os fins de semana para ela descançar
- descansar de quê? de se coçar nas esquinas?
- ah não, diz que o menino esteve mesmo muito mal, a minha filha chegou a ir lá ter com ela ao hospital e ela emagreceu muito nessa altura
- pois emagreceu, deve ser da droga, as gentes destas gerações agora é tudo na droga, mas esta por acaso nunca a vi fumar, deve fazê-lo às escondidas
- até pode ser que tenha escapado a isso, mas bebe que eu já vi
- mas depois do menino recuperar ela voltou a aceitar o pai do garoto, não foi?
- foi, havia de ser eu, dava-lhe um pontapé no cu que ele ia ver onde é que ia parar
- eu acho que ela gostava dele
- gostava, gostava, do que ela gostava sei eu
- com tanto homem jeitoso que por aí anda, ainda voltou para aquele
- depois levou com um par de cornos bem merecidos, estava a pedi-las
- não, acho que o problema foi ele não trabalhar
- não foi nada, então ele arranjou outra 
- não foi, chateou-se com os pais dela quando estavam a fazer as obras
- foi ela que acabou porque ele não trabalhava
- então, e agora este, faz o quê?
- olha, acho que não faz nada
- ele trabalhava no campo
- é, tem pomares e aqueles armazéns de fruta ali para baixo
- não, acho que não, ele trabalhava numa fábrica de peças para camiões
- não era nada, ele é vendedor
- olha que não, então este não é o filho daquela que mora ali para baixo que também é divorciada?
- não, este é o que mora mais acima
- não é
- é
- se calhar é e eu estou a fazer confusão, então este é o que está no estrangeiro
- férias? nesta altura? as férias do estrangeiro são em Agosto, deve ter sido expulso
- alguma ele fez
- ah, olha, olha, é ele que está a pagar o sumo do enteado?
- ah, ela não tem vergonha, uma exploradora
- olha, olha, até as tias dela o vão cumprimentar, é porque a coisa deve ser mesmo a sério
- talvez seja desta que ela ganhe juízo
- mas olha que o passado dele também não é famoso
- as pessoas mudam, que idade é que eles têm
- ele tem uns quarenta, ela é um ano ou dois mais nova que a minha, portanto deve ter uns trinta
- não, ele não tem nada quarenta que eu dei-lhe catequese
- se não tem quarenta, tem muito perto
- disfarça que ela está a olhar
- quero lá saber, ela que cá venha, não lhe devo nada
- e o rapazinho, tem quê, dez anos?
- não, com aquela altura terá uns dezasseis
- acho que não, acho que ele é do ano do meu neto
- que idade tem o teu neto?
- tem treze
- oh, achas? então com aquela altura alguma vez o garoto tem 13 anos?
- então e ela faz o quê?
- então, ela está naquele escritório há muitos anos, eu sei porque ela tem dado boleia à minha neta
- deve andar metida com o patrão, deve não, anda mesmo, então para ganhar para o carro, para a casa e para o filho, não pode ser só do ordenado
- então, o rapaz que está com ela também a ajuda com certeza
- como? se ele está desempregado?
- não está nada, é dono daqueles terrenos ali em baixo
- não é, está no estrangeiro
- eu cá acho que ele trabalha nos camiões
- hum, ele anda bem vestido demais para andar de enxada na mão
- não, ele só dá as ordens
- ah, é burguês
- bem me parecia

10 comentários:

  1. Cristo :O estou horrorizada :O não te apeteceu bater-lhes??? ai ca nervos pá

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    1. claro que não, isto é o prato do dia quando se vive na aldeia

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  2. Anónimo10/09/2014

    Vives numa aldeia pequena, não é?
    Conheço o tipo, onde moram os meus pais é a mesma coisa

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  3. :)
    As aldeias têm destas coisas!
    Na do meu irmão, por exemplo, estava certo dia a sogra dele a ganhar coragem para entrar na piscina quando um vizinho que ia a passar lhe grita (do lado de fora do portão):
    - então, está à espera do quê? entre logo que a água está boa!

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  4. Como é que conseguiste ouvir isso tudo, e não dizer nadinha?!

    Mas sim, conheço o género!

    Os cães ladram e a caravana passa ;)

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    1. A única forma de responder seria esclarecer. E valerá a pena dar a saber tanto da minha vida como eu própria sei?
      Deixar as pessoas serem felizes assim no seu mundinho pequenino é uma boa acção e eu, como (boa) escuteira que sou tenho a missão de fazer diariamente uma boa acção, se as pessoas ficam felizes por saberem da minha vida, é deixá-las ser felizes

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  5. Querida Inês, saiba que há pessoas que mesmo sem a conhecerem desde sempre gostam muito de si e a admiram imenso. É o meu caso! Um grande beijinho para si e para o filhote, catarina Tavares

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  6. Um grande WTF??? Adoro essas pessoas que falam das outras com elas por perto e sabem mais da nossa vida qo que os próprias... Deixa-as "ladrar" e bora lá ser feliz que isso sabes o que foi, foi inveja de vocês parecerem felizes :)
    Beijinhos

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  7. Adorei a reportagem, parecia as cusquices da minha terra, nem vale a pena perder tempo com esclarecimentos, fogo que elas poderiam ser mais moderadas com os comentários. Ser feliz ainda incomoda muita gente. Tudo de bom para ti e para os teus.

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