| p r e f á c i o |

|odiario.blog@gmail.com|

fingir que é véspera de natal

coleccionava algumas magoas que de quando em vez lhe tomavam o pensamento, coisas sem importância que arrumava numa caixa, um dia a caixa encheu e ela percebeu que pequenas coisas se transformam em quantidades que transbordam

caminhava vagarosamente, nas mãos levava ainda quentes, as iguarias acabadas de cozinhar, cruzou-se com a pessoa que a havia magoado e o coração esqueceu a caixa que transbordou uniu-se ao gesto que, num acto instintivo, esticou a mão partilhando parte daquilo que trazia consigo, de sorriso sincero disse-lhe -prova, é novidade! sentiu o coração quentinho de conforto. seguiu caminho. mais à frente lembrara-se da caixa cheia de coisas sem importância que agora transbordava, dos gestos que lhe traziam magoas e, por conseguinte, o afastamento. pensou no quão feliz é. voltou a sorrir com a certeza que o pacote que agora lhe faltara foi servido de aconchego ao coração e alivio na consciência e a caixa que transbordou ficava no mesmo sitio. não pensou mais nisso até ao dia em que precisou de dar aos seus rapazes um exemplo concreto de ajuda ao próximo, egoísmo, rancor e a importância da partilha, e é assim, dá-lhe forte e passa-lhe depressa, fica magoada, faz colecção de atitudes que a deitam abaixo mas na primeira oportunidade volta a mostrar que não há nada que uma boa noite de sono não apazigúe, aprendeu a viver assim desde sempre e agora, mesmo quando grita aos quatro ventos que 'não faz favores' ou 'não papa grupos' ela volta sempre onde é precisa, está lá, aqui e ali e acolá, abre os braços mesmo a quem lhe virou as costas, rasga sorrisos e tem boa vontade, na volta, volta a pôr-se a jeito para que um encontrão ou até uma brisa a deite de novo ao chão e a parta em cacos que depois junta e cola e guarda até voltar a pôr-se a jeito