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querido passado, escrevo-te em maio


como é que convivendo na mesma cidade passamos tanto tempo sem nos cruzar?
ontem enquanto regressava de um passeio em família [família é o castelo de areia que tentei construir contigo à beira mar] atrevi-me por instantes a pensar em ti. sorri, não por ti, por mim, e porque mesmo depois de teres sido a luz que me cegou vezes sem conta, agora que te vi, nada mais brilha em ti

não sei o dia exacto nem interessa foi neste mês, e neste mês eu lembro-me de ti depois esqueço-te de novo. este mês faz anos, não sei quantos, que esperaste por mim, admiro a tua coragem depois de a maioria das atitudes que te conheço terem sido cobardes, e embora tivesses todo o texto decorado e a possibilidade que te dei de, numa assentada, dizê-lo do principio ao fim, valorizarei sempre a tua disponibilidade para esperar pela primeira vez e para me dizeres que acabou por não teres saído antes de eu chegar, por teres mantido a coragem de me olhar nos olhos e me prometeres que era apenas uma relação composta por dois estranhos que nunca souberam dialogar que terminava, nunca uma amizade. na nossa relação o que devia ser discutido era omitido, descoberto mais tarde, muitas vezes tarde demais e este foi o primeiro passo para o abismo, o segundo foi continuar a acordar todos os dias com a certeza absoluta que hoje seria diferente, em vão. um dia tive a certeza que sim, que afinal era diferente, era eu e o miúdo outra vez portanto diferente. ao acabares com tudo isto nem percebeste muito bem o que fizeste, consumido pela certeza absoluta, confundiste tudo, eu não era um dado adquirido e tu não me viste escapar entre os dedos. aceitei-te tantas vezes de volta, curei as feridas da tua própria miséria, vezes sem conta e depois tratei das minhas e hoje já não doí -nada! espero que um dia sejas capaz de ser assim, feliz porque quando souberes o que isso é não vais certamente querer viver de outra maneira