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barriga vazia, coração cheio

fui mãe aos vinte numa adolescência tardia e cheia de conquistas frescas falo de liberdade e independência financeira fiquei grávida por negligência. custou aceitar. podia ter abortado não era legal mas existia mas assumi o que viria a transformar-se no maior bem, mesmo não amando o meu filho quando nasceu, o sentimento gerou-se e foi-se entranhando, nas veias, no corpo e no pensamento

nunca mo apresentaram, o instinto-maternal também não nasceu comigo e nunca entrou nos meus sonhos ou planos de futuro, não cresceu comigo, nem com a gravidez, nem é gémeo do meu parto. trinta anos e um filho. ter um filho é muito bom, mas a vontade, esse instinto tão apregoado, eu nunca conheci. ter um filho é muito bom, mas é uma escolha, nunca será altruísta quem escolhe ser mãe, nem egoísta a mulher que opte por não ter filhos [homens igual], nem toda a gente precisa de se reproduzir para se sentir completo e não tem de sentir vergonha por isso. no século XXI os parâmetros são ainda os mesmos [nascer, crescer, reproduzir, viver e morrer] a sociedade vive ainda num sistema de submissão da mulher [mãe] em relação ao marido, ao acto de procriar, reproduzir, muito acima do bem estar, dos planos e sonhos. não sei como será o meu futuro com um namorado [que será marido] e um filho que não é seu. não sei o que as pessoas pensam quando fazem perguntas, o que sabem de mim, dos meus sentimentos, do passado ou dos sonhos para o futuro. o tempo não me trouxe a vontade de voltar a ser mãe mas dá-me a possibilidade de fazer escolhas. hoje sou feliz, sou muito feliz na partilha da vida com os meus rapazes, a cuidar deles, a ser a mulher das suas vidas, no trabalho, em casa, quando escrevo, quando penso, quando ajo, quando viajo ou apenas quando os olho e divido com eles a minha vida. 

tenho trinta anos e a mesma vontade de ter filhos: zero! a pressão dos últimos tempos vem da pergunta que mais oiço e que chega ornamentada de pontos de interrogação, exclamações e muitos porquês sempre que nos cruzamos com alguém conhecido 'filhos, para quando?' reviro os olhos, desvio a conversa e oiço de novo 'não sejas egoísta, nem quero acreditar que não vais dar um filho ao meu amigo'

5 comentários:

  1. Ui... a velha pergunta de sempre! :P

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  2. O teu texto diz tantas verdades que só são verdades porque as pessoas são parvas.
    Primeiro não acho que ninguém seja egoísta por não querer ter filhos e depois acho uma estupidez pegada acharem que uma pessoa se não tiver filhos não se pode sentir completa e realizada.
    Detesto que me estejam sempre a perguntar pelos filhos, e se eu não quiser ter e se não os puder ter, e se tiver tido um aborto e não me apetecer falar nisso?
    Confesso que acho que ter um filho único pode ser considerado egoísmo dos pais mas em relação aos filhos, privar uma criança de ter um irmão é um bocadinho perverso, mas há motivos importantes para não o fazer e se é porque simplesmente não o querem fazer, estão no seu direito.
    Faz como eu assobia para trás das costas.

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  3. Gostei muito de te ler! Faz-me muita confusão esta pressão que as pessoas fazem aos outros, como se todos tivéssemos que ser iguais, como se todos tivéssemos que ter as mesmas ambições, os mesmos sonhos, os mesmos desejos.

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  4. Que mania que as outras pessoas têm de querer saber mais da nossa vida do que nós próprias. TU é que sabes se queres voltar a ser mãe ou não, não é por todas as outras pessoas dizerem que sim, que tens que o fazer, bolas, como se diz na minha terra, quem sabe da tenda é o tendeiro. Bjs e escolhas o que escolheres fá-lo por ti e não pelos outros :)

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  5. Entre ter 0 filhos oua centena deles vai um passo de gigante. Não pelo número de filhos, mas pelo compromisso, pela vontade, pelo querer.
    Cada um sabe de si, independentemente das razões pelas quais se tem ou não se tem. O mal na sociedade é que não oferece soluções, só problemas: se não tem é proque ou é egoista, ou tem uma doença qualquer. Se tem 1 é porque é egoista e não dá um irmão ao filho, se tem 2 é porque está a fazer média, se tem 3, 4 ou 5 é porque quer ser sustentado.
    Já diz o ditado, cada um sabe de si e Deus sabe de todos
    Nany

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