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| e são felizes para sempre |

'' a casa está um nojo, não é limpa há uma semana e não é todos os domingos que se apanham os dois sem crianças numa tarde horrível, ou seja, perfeita para estas tarefas. não tarda os miúdos estão de volta e depois ninguém consegue fazer nada. apesar da inercia do marido, alapado a ver a bola, cristina decide, unilateral e furiosamente, começar. arranca desenfreada, areja a casa, faz as camas, pendura toalhas de rosto no toalheiro, as de banho no aquecedor, sacode tapetes, bate as almofadas, reúne a roupa para lavar, dobra e arruma a que está desarrumada, recolhe brinquedos, limpa o pó aos quartos e lava a casa de banho. terminada a zona de dormir, dirige-se à cozinha a ferver com a visão do marido impassível, esparramado no sofá, de repente, a loiça que sai da máquina parece ter a mesma opinião, pratos que batem uns contra os outros a caminho do armário, copos chocalham contra os que já estão arrumados, talheres que parecem saltar para dentro da gaveta, mas de vez em quando desequilibram-se e caem no chão com estardalhaço
- cristina, o que é que estás a fazer? - pergunta pedro sem mexer um pêlo
- nada - responde ela - estou só a atirar coisas contra as paredes
- anda, senta-te aqui um bocado
- oh, sim, claro, se me ajudasses, eu depois até me sentava, mas agora não posso
pedro distrai-se com um remate mais agressivo da equipa contrária, fora de jogo, parece. cristina continua nas limpezas, agora aspira, a sala é claramente a divisão mais necessitada 'estranho, há qualquer coisa agarrada ao chão, mesmo à frente da televisão' cristina insiste, aspira até que o marido perde a cabeça
- desculpa lá, mas tens de vir fazer isso agora?
- e queres que eu faça quando? quando os miúdos chegarem?
- mas não aspiraste já o suficiente?
- não, se estou a limpar é para ficar bem limpo
- deixa estar, eu já faço isso, senta-te aqui e já acabamos isso os dois
- pensas que eu não te conheço, 'já acabamos isso os dois' é o teu código para 'depois arruma-se isso' ou seja, arrumo eu na mesma, se depender de ti vivemos no chiqueiro, mas deixa-te estar, eu faço tudo, longe de mim perturbar-te
- que chata, caraças, diz lá então o que é que queres que eu faça
pedro levanta-se com o comando na mão e fica a olhar para a televisão, de pé
- eu não quero que tu faças nada, não percebeste ainda? se quiseres fazes, se não, vai-te lixar
- diz lá, eu quero fazer... estou ansioso
finalmente desliga a televisão
- há roupa para estender e roupa estendida para apanhar, dobrar e passar a ferro, é preciso meter a loiça na máquina, lavar o chão da cozinha e da casa de banho da entrada, mais nada, o resto já fiz. cristina senta-se no sofá, anteriormente ocupado pelo marido, pega numa revista e recosta-se, pedro dirige-se ao estendal e começa a dobrar toda a roupa que apanha, cristina levanta-se imediatamente e finge ir beber um copo de agua
- pedro, a roupa não é toda para dobrar, há aí coisas que têm de ser passadas
- que coisas? para além das minhas camisas, não há nada que precise de ser passado
- então não há? achas que vou guardar nas gavetas pijamas a parecer panos do chão?
- e que mal é que tem, não podes dormir com um pijama amarrotado?
- e os miúdos, vão para a escola assim?
- que mal tem? endireita-se com a mão, olha...
- não quero as coisas nas minhas gavetas, na minha casa, nesses estado! e as meias são para juntar aos pares, se metes tudo ao molho nunca mais usas duas meias iguais, deixa lá que eu faço isso, mete tu a loiça na máquina
pedro, com maus modos, dirige-se à máquina de lavar loiça e começa a amontoar a que antes amontou no lava loiças
- os tachos têm de ser lavados à mão, se não ficam na mesma, estes que estavam aqui já saíram sujos da máquina anterior
- deixa estar, são lavados outra vez, pode ser que fiquem melhores
- mas assim a loiça do jantar não cabe, vamos ter de fazer outra máquina e gastamos mais agua
- estás preocupada com a agua que a máquina gasta para lavar mas lavas o lixo que é para reciclar
- claro, se não fica a cheirar mal
- se não o despejar, fica
- tu?
- sim, eu, há quanto tempo não tiras um saco do caixote?
- tiro sempre!
- deixa-me rir, vai mas é limpar a casa de banho em vez de estares a dizer disparates
- pára de me dar ordens!
- são não as der, tu não fazes nada

quando acabou de dobrar a roupa, cristina lavou o chão da cozinha e foi espreitar que tal se safava o marido. ficou horrorizada - estás doido? tu por acaso estás a limpar a retrete com o esfregão da loiça?
- e qual é o mal? tem detergente, e sabes para que é que serve o detergente? para desinfectar!
- que nojo! achas que agora vou limpar a mesa da cozinha com o mesmo esfregão que serviu para limpar a retrete? pira-te daqui e vai, se faz favor buscar o pano azul que está na prateleira pequena do armário da cozinha, com cuidado que acabei de lavar o chão. pedro volta-se furioso e atira com o pano que tinha na mão contra a parede, por azar fez ricochete e caiu direitinho dentro da sanita. cristina range os dentes para se conter enquanto o homem vai à cozinha. assim que coloca um pé calçado em cima do chão desinfectado, cristina perde a cabeça e avança para o marido pronta para lhe arrancar os sapatos à dentada. ao vê-la enlouquecida, pedro volta para trás, agarra na chave do carro e dirige-se à porta
- estás louca, é só o que te digo, estás completamente louca e queres enlouquecer-me também
- onde é que pensas que vais?
- vou para o julio de matos ver a bola, preciso de estar com gente normal ''

2 comentários:

  1. Anónimo11/18/2015

    Tão típico!

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  2. As mulheres complicam mesmo a sua própria vida! Tinha sido um tempo tão bem passado a serem felizes. Até o tempo estava a favor! Tão hábil é o ser humano a transformar a sua vida numa solução estéril...boa para desinfetar casas de banho! :-)

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